Artigo sobre o texto “A Educação Estética” de Lev S. Vygotski
“Nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons.” Freud
No capítulo XIII do livro “Psicologia Pedagógica” o pensador Lev S. Vygotsky traz à reflexão o conceito da educação estética. Comumente utilizada pelo professor como um meio para que o aluno chegue em uma moral específica (pré-estabelecida), essa educação estética é combatida pelo autor durante seu texto. Compelido pelos exemplos que já demonstravam uma falha educacional no período histórico em que viveu – ainda presente na atualidade – que faz com que o aluno chegue a uma moral correta, estipulada pelo professor, Vygotsky apresenta uma gama de argumentos contrários a essa metodologia de ensino.
Realmente cabe uma reflexão mais aprofundada sobre qual o papel do professor na construção do conhecimento que o aluno realizará dentro da escola, uma vez que a “tarefa” do aluno dentro do ensino tradicional fragmentado é descobrir o que o professor espera que ele descubra. Sua problematização se aprofunda quando questiona – com base nos exemplos que coloca – a literatura infantil, conhecidamente inserida num universo lúdico, altamente ilusório, onde a criança deve resgatar os valores morais acerca do que está sendo proposto.
O que fazer quando obras indiscutivelmente “éticas” exercem um efeito moralmente prejudicial à psique da criança?
A partir dessa reflexão o autor segue sistematizando seus argumentos com o intuito de reforçar a ideia de que
“a obra de arte nunca reflete a realidade em toda sua plenitude e verdade real, mas é um produto sumamente complexo da elaboração dos elementos da realidade, de incorporação a essa realidade de uma série de elementos inteiramente estranhos à ela” (Pág. 329). Sendo assim, ao dotar o aluno apenas para que tenha capacidade de identificar e reproduzir uma emoção oriunda do seu professor, ou até mesmo do autor da obra se estendermos à reflexão, esse tipo de ensino acaba por reprimir qualquer criatividade emotiva que o aluno possa ter. Como diz, é preciso identificar a tristeza, para poder superá-la.
A ruptura no pensamento que Vygotsky propõe se baseia no papel do professor em primeiramente identificar no aluno essa emoção original ao lidar com uma obra de arte, seja ela literária ou não, para somente assim, poder direcioná-la, de modo que o aluno consiga desenvolver plenamente seu potencial criativo.
Acredito que essa educação estética deva estar estreitamente relacionada a todo contexto (histórico, político, social, cultural) em que o alunos e professores encontram-se inseridos, e a partir daí o dever do professor é estimular no aluno essa capacidade que ele teria para transcender esse meio em que se encontra inserido. A vivência concreta daquele momento de contemplação da obra de arte, a emoção original sentida pelo aluno, não pode ser reprimida pelo professor, uma vez que é bem mais significativa do que o imaginário idealizado pelo mesmo. Nesse ponto cabe ressaltar que essa reflexão pode ser estendida ao próprio autor da obra, quando tentamos adivinhar o que ele estava “querendo dizer”.
Esse texto consegue abrir nossos olhos para uma prática que é bastante comum na educação tradicional de nosso tempo. Dentro de uma metodologia de ensino fragmentada torna fácil se desvincular a educação da realidade dos indivíduos, e assim, a possibilidade dele conseguir desenvolver um pensamento crítico, a partir do que observa em seu dia-a-dia, acaba por se reduzir também. O indivíduo é levado a acreditar que é senhor dos seus atos e pensamentos, quando na verdade apenas os reproduz com base em apenas um único quinhão da realidade. Oscar Wilde, uma vez disse “muitas pessoas são outras, seus pensamentos são geralmente as opiniões de outros, suas vidas, uma imitação, suas paixões, uma citação.” E é isso o que acontece com indivíduos condicionados a encontrar sempre o que o outro espera deles, e nunca o que ele mesmo espera.
Na tentativa de descobrir o que o professor quer passar o aluno acaba suprimindo seus pensamentos originais, às vezes, capazes de fornecer uma nova maneira de olhar sobre o objeto estudado.
Por fim, tenho que dizer que a partir da formação que tive (foco em tecnologias da informação e comunicação) penso que a estética deva levar em consideração características como originalidade (a atenção inicial é, por muitas vezes, despertada pela originalidade da pessoa/produto/serviço), relevância para com o usuário da tecnologia/produto/serviço, e simplicidade e praticidade, uma vez que o objetivo deve ser alcaçado da maneira mais rápida, havendo a menor quantidade de ruído/interferência que se puder.
Há diversas outras considerações que Vygotsky faz que podem ser refletidas a partir da leitura desse mesmo texto – principalmente quando questiona o modelo diferenciado de ensino entre aqueles que são talentosos e os que são medianos – mas, com receio de começar mais uma reflexão que torne o texto longo demais acredito que devo finalizar o trabalho. No entanto, prefiro encerrá-lo com um questionamento que me acompanhou durante toda execução do trabalho, e que infelizmente não pude extrair uma resposta com base na leitura que fiz do texto. Partindo do pressuposto que o homem sofre influências do seu meio, que vão condicionar sua visão de mundo, como fazer com que ele deixe de influenciar seus iguais através de seus próprios valores morais?
Recomendo o vídeo RSA Animate – Mudando Paradigmas na Educação
O olho do observador interfere no objeto observado. Anônimo

