A revolução do futebol
Nos outros artigos que escrevi sobre futebol penso ter deixado claro o que sinto por esse esporte.
Como muitos em nosso país, passei a infancia (e boa parte da adolescência) querendo ser um jogador de futebol.
E se hoje em dia já não penso mais nisso (apesar de saber que poderia ser), continuo um apaixonado pelo esporte, praticando-o nas peladas da cidade sempre que posso.
No entanto, nos últimos três anos, estive em contato direto com um esporte, também praticado com os pés, que me fez repensar o papel do futebol em nossas vidas.
Jogado tanto nas areias do Rio de Janeiro, quanto nas de Tel Aviv, mas também em qualquer lugar que dê para levantar uma bola, a altinha está revolucionando a arte com a bola nos pés.
Justamente por deixar que a arte flua sem que haja a competição entre times.
Em Ipanema, aprendi a admirar esse esporte que para mim era apenas uma brincadeira (até meio sem graça, já que a bola caía toda hora).
E apesar de continuar sendo uma brincadeira, acredito agora que ela represente muito mais do que a palavra quer dizer.
A inovação da altinha é colocar um grupo de pessoas interessadas em uma única coisa, manter a bola no ar.
E essas pessoas tem que trabalhar em conjunto, para que a bola permaneça em jogo.
Só que a medida que você vai praticando o esporte, e pegando entrosamento com os amigos que também jogam, a arte se torna ilimitada, passando, até mesmo, a ser estimulada (coisa que não anda acontecendo no futebol mercadizado de hoje).
O fato de não haver competição direta durante o jogo dá mais liberdade para que as pessoas experimentem novas técnicas de passe, domínio e outras improváveis e, as vezes, quase impossíveis.
Só que esse esporte também exige responsabilidade, ou mesmo consciência de que você não pode sair tentando fazer arte em qualquer hora. Em alguns momentos é preciso somente jogar a bola pro alto.
Tudo dependerá da vontade que você emprega ao tentar um movimento. E quanto mais acreditar que consegue, mais fácil pegará o jeito da coisa.
E eu digo, todos podem jogar. Homens, mulheres, velhos, crianças, gordo, magro, negro, branco, brasileiros e norte coreanos, todos podem jogar, e bem.
Como tudo na vida vai depender da prática. O ditado já diz, “a prática leva à perfeição”.
Em Ipanema, infelizmente a prática do esporte tomou um duro golpe ao ser proibida nas areias mais próximas da água (e portanto, mais frescas) até as 17hrs da tarde, o que foi uma decisão justificada no verão por causa da quantidade de pessoas e pela temperatura nitidamente mais alta do sol, que poderia causar algum mal àqueles que ficam muito tempo expostos curtindo o esporte. No entanto, estender essa imposição às outras estações do ano em todos os dias sem exceção (como andam fazendo ainda hoje) me parece, no mínimo, desnecessário.
A presença de guardas municipais na orla impedindo que o esporte seja realizado na beira da água em todos os dias faz parecer que o esporte é ilegal. E se a nossa sociedade é baseada em leis, me digam em qual lei está escrito que não pode jogar altinha na beira da água. Mas como disse antes, o bom senso diante de uma praia cheia deveria ser imperativo para que a prática fosse suspensa, mas não em todos os momentos.
Na certa, e talvez para acabar com essa imagem impopular que estão querendo incutir à arte, dentro em breve, veremos campeonatos dessa modalidade.
O diferencial desse esporte seria o fato de não haver confronto entre equipes. O futvôlei já faz isso para os que curtem.
De alguma forma, a avaliação do jogo terá que ser feita por pontuação. Diria até uma pontuação consensual de todos que jogarem o campeonato.
A formação mais perfeita de jogo é o quadrado, ou cruz, feitas por quatro jogadores. Mas isso não quer dizer que não possa haver bons jogos com dois, três, cinco ou mais jogadores.
Só que com um quarteto, fica mais fácil jogar, pois todos os lados do jogo estão cobertos.
Colocando uma corda fazendo um círculo em volta dos jogadores, já teríamos o campo de ação da equipe.
Qualquer indivíduo da equipe pode até salvar a bola fora da linha, contanto que dê o passe para dentro do campo novamente.
A partir daí a forma como se avaliaria as equipes é relativa e subjetiva para que eu sozinho tente chegar na melhor forma. As regras podem ser estipuladas de acordo com o consenso geral.
É claro que quem já joga futebol tem uma adaptação melhor à interação da bola no alto. E mesmo para esses a altinha é um excelente exercício, pois dá equilíbrio, tempo de bola, reflexo, domínio, concentração, entre outras coisas. Com o tempo, e o desenvolvimento da técnica, todas essas características vão ficando mais apuradas. Eu sei disso porque senti a diferença que ela proporcionou ao meu jogo.
Quem não joga futebol, pode jogar altinha muito bem, e ainda assim continuar tendo pouco intimidade com a bola rolando. Mas também, da mesma forma, ou até mais, poderá usufruir dos benefícios que o esporte traz.
Mas o fato é que todas tribos já estão jogando altinha na praia e em outros lugares. E a medida que vá se popularizando (o que é uma tendência natural) mais e mais adeptos vão descobrindo ou redescobrindo o esporte.
Não podemos dizer que o esporte tenha começado nas areias, mas é provável que na areia ele atinja todo o seu potencial, pois além de ser pública, ela dá liberdade para que a gente possa pular a vontade sem se machucar.
O importante é que a técnica se desenvolveu para virar arte, e agora a arte está se desenvolvendo para virar mágica.
Pois é mágica o que está acontecendo nas areias das praias da zona sul do Rio de Janeiro.
De tão avançada alguns já andam diminuindo o tamanho das bolas.
E talvez no futuro, nossas mentes estarão tão conectadas umas com as outras que não precisaremos nem mesmo de bolas.
Deixemos o futuro chegar então.
Fui!!




